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MULHER

 

Perguntas frequentes

 

1.   O que é que levará um sujeito a bater/espancar sistematicamente alguém de quem supostamente gosta e de quem não se quer separar?


R. Como já tem sido diversamente afirmado, a violência constitui uma forma de exercício de poder mediante o uso da força (física ou psicológica), pelo que define inevitavelmente papéis complementares: assim surge o agressor e a vítima, elementos de uma relação que, independentemente das assimetrias que comporta, não pode ser vista apenas unilateralmente.
O recurso à força constitui-se como um método possível de resolução de conflitos interpessoais procurando o agressor que a vítima faça o que ele pretende, que concorde com ele ou, pura e simplesmente, que se anule e lhe reforce a sua posição/ identidade.

Muito frequentemente, o agressor (ele próprio possível vítima directa ou indirecta de relações de abuso na sua infância e/ou adolescência) tem uma dúvida básica relativamente ao amor que a(s) figura(s) de vinculação lhe dispensa(m): este sentimento de falha básica, que uma vida inteira não chega para colmatar, a par de uma auto-estima muito diminuta fazem com que, num processo paradoxal, este indivíduo, que se sente fraco, mal-amado e vítima da "injustiça dos homens", vá dominar as suas inseguranças submetendo outros mais fracos ao seu poder, vingando-se e aliviando a raiva que sente enchendo os outros dos seus afectos negativos e tentando criar uma identidade que lhe permita, afinal, saber quem é e o que pode fazer.
É habitual que uma vinculação insegura reforce a dependência relacional: a incompleta gratificação amorosa e a dúvida básica quanto à acessibilidade e disponibilidade do outro significativo dificultam o equacionar da ausência e colocam sérios entraves à construção da capacidade de estar só. É nisto que radica a paradoxalidade da capacidade de se ser independente e autónomo: só se consegue sê-lo quando se pôde ser, primeiro, completamente dependente e, depois, se foi autorizado a um afastamento progressivo, sem receios nem retaliações mútuas. Caso contrário, perpetua-se uma dependência insatisfatória que, por isso mesmo, se ataca permanentemente mas da qual o sujeito nunca se liberta.
Desta forma, o agressor bate ou espanca o outro não porque não gosta dele ou lhe quer fazer mal (situação que ocorre no comportamento agressivo) mas sim porque o quer configurar à sua própria maneira de ser e de pensar. O isolamento social que lhe impõe decorre, frequentemente, desta necessidade de exclusividade relacional de que o agressor necessita.

2.   Como podemos intervir de forma a evitar a vitimização secundária?


R. Por vitimização secundária entende-se o processo pelo qual a vítima experiencia nova vitimização a partir das respostas que obtém por parte daqueles a quem recorreu em busca de ajuda e que, contrariamente ao esperado, duvidam da história que a vítima lhes conta, desvalorizam os factos ocorridos e o comportamento do agressor ou dizem à vítima que o melhor é procurar esquecer.

Este tipo de resposta pode fazer com que a vítima:


a) Se sinta profundamente incompreendida e apoiada, aumentando, assim, o seu sentimento de mal-estar, de insegurança, de isolamento e vitimização;


b) Internalize cada vez mais o problema, considerando-se culpada pelo ocorrido e/ou percebendo-se como indigna e, como tal, obrigada a receber um castigo mais ou menos duradouro, o que conduz a significações opressivas sobre a sua própria identidade (desqualificação)

c) Não se sinta autorizada a desenvolver um outro tipo de relação, consigo própria e com os outros, nomeadamente com o agressor, passando a estar cada vez mais dominada pelo medo e pela vergonha que marcam o seu quotidiano (discurso de irresolução do problema);

d) Não volte a procurar uma alteração do quadro relacional em que se encontra até que o mesmo se torne excessivamente insuportável ou fortemente ameaçador para a sua integridade física.

Desta forma, o técnico (psicólogo, assistente social, polícia, médico, elemento de uma linha SOS) que recebe um pedido de apoio, por parte de uma vítima (de abuso físico e/ou psicológico), tem que começar por:


1) Ouvir o que a vítima relata, procurando clarificar o tipo de ajuda que ela solicita, nomeadamente o seu pedido latente;

2) Mostrar empatia para com a vítima (e não apenas simpatia), questionando-a sobre aspectos que sejam necessários para a obtenção de informação pertinente para a compreensão da situação;

3) Reenquadrar a visão que a vítima tem da situação, permitindo-lhe experienciar um novo domínio sobre a situação e activar competências próprias completamente bloqueadas pelas vivências de opressão e, muito provavelmente, de isolamento;

4) Avaliar o perigo real que a vítima experiencia de ser novamente abusada, ajudando-a a equacionar os recursos de que dispõe e as ajudas que poderá e deverá solicitar.

Posteriormente, já no quadro de um apoio específico, o técnico deve:

a) Ainda num contexto de urgência, avaliar o perigo real de abuso, ajudando a vítima a elaborar um plano de segurança pessoal e a mobilizar um conjunto de mudanças, provavelmente de 1ª ordem, que lhe permitam a estabilidade e o apoio necessário à transformação da urgência em crise e ao desenvolvimento de um verdadeiro processo de mudança e de re-autoria da história pessoal da vítima.

 

3. Por que é que as mulheres apesar de maltratadas não abandonam a relação?  

R. Alguns aspectos a ter em conta:

  • Temem que o marido se possa tornar mais violento (eventualmente o homicídio), se tentam abandonar a relação;
  • A ideologia tradicional, os valores e as crenças, (contribuindo para perpetuar a violência familiar), levam-nas a rejeitar, por vezes, qualquer mudança.
  • Sentem-se desprotegidas se algo não correr como esperam.
  • Os seus amigos e familiares, nem sempre compreendem o porquê do abandono. Registe-se que fora da família nuclear a problemática da violência intra-familiar nem sempre é conhecida, correndo a mulher, que abandona este subsistema, riscos de isolamento social/familiar, para além da vergonha e do embaraço provocado por tal situação.
  • A eventual perda da custódia dos filhos, ou a educação monoparental destes, "problemas" a nível do contexto profissional, as dificuldades económicas (muitas estão desempregadas; não têm acesso à conta bancária).
  • A história da família nuclear marcada por "uma mistura de bons momentos, amor e esperança", a par com fases caracterizadas pela manipulação, intimidação e medo, talvez desencoraje muitas das mulheres a colocarem os maridos em tribunal, a procurarem assistência legal, e a desistirem dos processos judiciais que entretanto iniciaram. Sugere a literatura que os casais frequentemente experienciam períodos de "lua-de-mel" (de 3-4 meses) entre episódios violentos, mesmo sem intervenção terapêutica.
  • A falta de informação adequada sobre os seus direitos, e como fazer para sair desta situação.

 

4. Existem indicadores que nos poderão ajudar a caracterizar o (potencial) agressor?

R. As questões que passamos a apresentar, representam alguns dos itens que nos ajudam a responder a esta pergunta:

  • Cresceu este homem numa família violenta?
  • Recorre ao uso de força/violência para resolver os seus "problemas"?
  • Na relação/interacção com os outros e com o mundo: é possessivo e ciumento? Imprevisível? Face a estímulos provocatórios tem expressões inapropriada de raiva? É abusivo nas palavras? Tem tendência ao isolamento social? Tem falta de redes sociais de suporte? Baixa auto-estima, sentindo-se pouco qualificado? Baixo limiar de tolerância à frustração? É cruel para com os animais? Manifesta facilmente o seu comportamento violento quando contrariado... como resultado de "um mau dia"?
  • Consome imoderaderadamente substâncias/dependência, associado a falta de crítica relativamente a este consumos, e à não-aceitação da necessidade de tratamento?
  • Olha a mulher como propriedade/objecto, e não como igual, não respeitando as mulheres enquanto grupo?
  • Defende algumas das ideias tradicionais, como por exemplo: "As mulheres são para estar em casa, para tomarem conta dos seus maridos e seguir os seus desejos e ordens"?
  • Quando existem armas em casa ameaça usá-las contra os outros?

 

5. Quais são as consequências físicas para a saúde, na mulher maltratada?

R. Lesões graves (equimoses, fracturas, incapacidade crónica), podendo eventualmente ocorrer o homicídio.

Gravidez não desejada, seja por violação, ou pela incapacidade de negociar o uso de contraceptivos. Registe-se que algumas mulheres podem ter medo de usar contraceptivos por medo de serem batidas ou abandonadas. Perante uma gravidez não desejada há mulheres que recorrem ao aborto, com todos os riscos que lhe são inerentes, nos Países em que a legislação vigente não o permite. Riscos para a mãe e para o feto, associados à violência durante a gravidez, como por exemplo: baixo aumento de peso materno durante a gravidez, peso do bebé inferior ao normal, aquando do nascimento, infecções, anemias.

Doenças transmissíveis sexualmente (DTS), incluindo o H.I.V. (eventualmente por não poderem negociar o uso de protecção). Registe-se que as mulheres com DTS têm riscos aumentados de complicações durante a gravidez (septicemia, aborto espontâneo, nascimento prematuro) A violência sobre a mulher aumenta a probabilidade/vulnerabilidade às doenças (dor pélvica crónica, problemas menstruais graves, DTS, infecções urinárias,...). Há autores que sugerem que esta vulnerabilidade pode dever-se, em parte, à imunidade reduzida devido ao stress associado aos maus tratos.

 

6. Quais são as consequências psicológicas para a saúde, na mulher maltratada?

R. As mulheres maltratadas têm mais probabilidades de sofrerem de distúrbios psiquiátricos: Depressões graves, associadas a tentativas de suicídio (a morte nestes contextos reflecte em certa medida a falta de opções de que dispõe a mulher para escapar a uma relação violenta); Stress pós-traumático; Alterações do sono; Distúrbios alimentares; Fadiga crónica; Comportamentos aditivos.

NOTA: http://www.who.int/whr2001/2001/main/en/chapter2/002h2.htm

"... Another reason for the sex differences in common mental disorders is the high rate of domestic and sexual violence to which women are exposed..."

 

7. Que impacto poderá ter nas crianças, o facto de crescerem no seio de uma família violenta?

R. As meninas que vêem o pai ou o padrasto a tratar violentamente a mãe, têm mais probabilidades de aceitar a violência como "normal" quando adultas. Já os meninos têm maiores probabilidades de virem a ser violentos com as suas companheiras, em adultos.

 

"The León, Nicaragua, study reported that children who had regularly witnessed their mothers being hit or humiliated, compared to other children, were at least five times more likely to experience serious emotional and behavioural difficulties" (page3)

Ellsberg M, et al., Confites en el infierno: prevalencia y características de la violencia conyugal hacia las mujeres en Nicaragua. Asociación de Mujeres Profesiocales por la Democracia en elDesarrollo, Managua, 1996

 

8. Perante alguém que suspeitamos que foi maltratado, que atitudes poderão ajudar a esbater resistências?

R. No contacto com alguém que nos pede ajuda é fundamental ter sempre presente que a adopção de atitudes não solidárias ou culpabilizantes para a vítima podem reforçar o seu isolamento e a sua culpa, minar a confiança em si mesma, terminando no acting out do processo que se pretendia de ajuda/terapêutico. Evitar juízos valorativos, reforçar a importância do segredo profissional, estar atento aos sinais e sintomas de maus tratos, são outros aspectos também a ter em conta.

 

9. Na mulher, que indicadores nos podem fazer suspeitar da existência de maus tratos?

R. Se bem que a melhor maneira de descobrir se há ou não história de maus tratos seja perguntar directamente, há indicadores que nos podem fazer suspeitar:

  1. Queixas crónicas, vagas, que não têm uma causa física óbvia
  2. Lesões que não coincidem com a explicação de como foram produzidas
  3. Um companheiro que é excessivamente atento, controlador, ou renitente em deixar a mulher a sós com o(a) terapeuta
  4. Lesões físicas durante a gravidez
  5. Antecedentes de tentativas de suicídio, ou pensamentos sobre suicídio.
  6. Uma clara demora entre o acontecimento que provocou a lesão e a vinda ao Centro de Saúde

 

10. Se quisermos colocar questões sobre violência familiar, a uma mulher que nos pede ajuda, como fazê-lo?

R. Alguns formatos possíveis:

  1. "Dado que a violência é tão comum na vida da mulher, agora faço perguntas a todas as mulheres sobre violência doméstica. Alguma vez foi batida ou maltratada pelo seu companheiro?"
  2. "Às vezes quando vejo uma mulher com uma lesão como a que a Srª apresenta isso pode acontecer porque alguém lhe bateu. Sucedeu-lhe isso?"
  3. "Às vezes quando as pessoas chegam ao meu consultório com sintomas/sinais como os que a Srª manifesta/apresenta, achamos que pode haver problemas em casa. È esse o seu caso?"
  4. "A Sr.ª disse que o seu companheiro/marido bebe álcool. Alguma vez ele se tornou violento?"



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